Crise faz um ano e horizonte é incerto

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

São Paulo, 11 de Agosto de 2008
Há um ano, os mercados financeiros mergulhavam em mais uma crise, a das hipotecas subprimes, tendo como epicentro o mercado americano de crédito imobiliário. Em agosto do ano passado, um ponto em comum permeava os discursos de analistas quando o tema era a longevidade do ajuste necessário para afastar os riscos envolvidos. Boa parte doa analistas considerava limitados os potenciais efeitos do fim da bolha imobiliária nos demais mercados. O ajuste, acreditavam, seria pontual. Os prejuízos bilionários dos bancos, a redução no crescimento global e a forte volatilidade das bolsas jogaram por terra esta idéia.
A exposição do setor financeiro às suprimes - hipotecas de segunda linha, concedidas a quem normalmente não poderia ter crédito - surpreendeu. "Eu mesmo achava que não duraria muito, mas o choque nos bancos começou devagar, foi crescendo e ainda não terminou", avalia Guilherme da Nóbrega, economista-chefe da Itaú Corretora. "As perdas estão próximas de US$ 500 bilhões e podem ser muito maiores."
O medo de que a bolha imobiliária estourasse já vinha tirando o sono de muita gente, mas foi em agosto que os fatos marcaram de vez a nova crise. O dia mais nervoso ocorreu em 16 de agosto, uma quinta-feira. A Bovespa chegou a cair quase 9%, fechando com recuo de 2,58%, o dólar subiu 4,43% e o risco-país disparou 14%. Um dia antes, a financiadora imobiliária Countrywide Financial - maior empresa norte-americana do setor de hipotecas - havia feito um empréstimo de US$ 11,5 bilhões para enfrentar um problema de liquidez. Dois bancos centrais, o americano Fed e o Boj, do Japão, abriram os cofres e injetaram US$ 20 bilhões nos bancos para garantir a liquidez do sistema. A ação coordenada dos BCs ao longo da crise, embora não tivessem impedido uma forte alta nos spreads das linhas de crédito, foi determinante para evitar um colapso do sistema.
"O erro foi deixar a situação chegar onde chegou, mas depois não havia o que fazer a não ser sair em socorro das instituições e evitar um mal pior", diz Nóbrega, do Itaú. "Faltou muita coisa, um ambiente com boas praticas, e não um sistema baseado apenas na avaliação de risco das agências de rating, isto não se mostrou eficiente." Para Nóbrega, os instrumentos de controles estavam frouxos. "Vínhamos de um ciclo longo de crescimento dos EUA, com juros baixos e excesso de liquidez global e toda vez que ocorre um ciclo longo benigno, os instrumentos de vigilância e controle ficam frouxos, é normal."
Dados da consultoria UpTrend mostram que, desde setembro do ano passado, foram injetados US$ 860 bilhões no sistema financeiro, com linhas de crédito entre US$ 20 e US$ 75 bilhões em leilões. Também foram adotadas medidas para estimular o consumo, com pacote fiscal de US$ 168 bilhões, e mudanças regulatórias na tentativa de definir melhor o papel de cada agente fiscalizador e evitar que o problema se repita. A taxa básica americana sofreu sete cortes consecutivos, indo de 5,25% para 2% ao ano, incluindo uma reunião extraordinária. Outro fato marcante foi a compra do Bear Sterns pelo JP Morgan, pela bagatela de US$ 1 por ação, negócio tutelado pelo Fed americano. Tudo para evitar uma quebradeira de bancos e, principalmente, que o grande mal se estabelecesse e a economia americana entre numa recessão, o que arrastaria inevitavelmente outros mercados. Por enquanto, parece que deu certo.
"A economia está se desacelerando, mas acho que caminha mais para uma queda suave, não vejo um PIB americano negativo", avalia Roberto Padovani, economista-chefe do banco WestLB. Nóbrega, da Itaú Corretora, concorda. "Os reflexos ainda não se materializaram totalmente, mas a economia americana tem se mostrado forte, mais integrada e flexível", diz. Para o Brasil, o cenário de desaceleração global pode não ser tão ruim.
"A desaceleração reduz o preço das commoditires que afetam o desempenho das bolsas, mas este movimento pode ajudar o Brasil a controlar a inflação, o que é positivo", avalia Nóbrega, lembrando que a queda das commodities veio para ficar, colocando o nível dos preços em outro patamar. "Não dá para saber quando este movimento acaba, mas o efeito no Brasil é mais benéfico do que maléfico, faz coro Padovani.
Ao menos no curto prazo, a queda nas commodities que ajuda a política monetária doméstica não colabora em nada com as bolsas. Só este ano, a Bovespa acumula queda de 11,42%. Em Wall Street, o índice Dow Jones cai 11,54% este ano e o S&P 500 recua 11,72% "Acredito que haja uma recuperação suave das bolsas, não vejo que haja espaço para piorar muito", diz Padovani, do WestLB. "O ajuste nos preços das commodities deve perder força e o preço da bolsa, particularmente a brasileira, ficará atrativo."

O perigo da recuperação dos lucros

sábado, 9 de agosto de 2008

As empresas brasileiras, inclusive instituições financeiras, apresentaram, no primeiro semestre de 2008, uma significativa redução de margens de lucros - particularmente grave para um grande número delas quando calculada em valor real -, apesar do aumento de faturamento.Trata-se de uma conseqüência, basicamente, do forte aumento dos custos de produção, especialmente das empresas que dependem muito de commodities, cujos preços, no primeiro semestre, tiveram forte elevação.Em boa parte dos casos houve erro de cálculo nas estimativas de evolução dos custos, de modo que, numa fase de redução dos preços das commodities, as empresas podem sentir-se tentadas a recuperar as margens de lucros, especialmente se se deparam com uma demanda doméstica vigorosa, seja por efeito do aumento de remuneração do funcionalismo público, seja pela atualização generosa do Bolsa-Família, seja pela continuidade da forte expansão do crédito.Essa expansão, que os próprios bancos avaliam em 25% neste ano, é a resposta que estão dando à (pequena) redução dos seus lucros, além de cogitarem aumentar as tarifas dos seus serviços.No caso das empresas de outros setores, elas não levarão em conta a provável redução dos custos de produção, preferindo reparar o erro de cálculo do primeiro semestre aumentando suas margens, ainda mais que grande parte dessas empresas investiu no aumento da capacidade de produção ou da produtividade, devendo, portanto, arcar com o reembolso dos empréstimos contratados.Assim, estaremos diante de um novo fator de inflação, que poderá neutralizar a queda, que parece se consolidar, dos custos de produção. Essa realimentação inflacionária poderá encontrar mais impulso na desvalorização do real, que eleva os custos da produção.Diante desses fatores que podem atrasar o atual processo de redução da taxa de inflação, parece-nos que seria adequado tomar algumas medidas - além de dar continuidade, até o final do ano, à elevação gradual da taxa Selic. Uma delas seria um maior esforço para elevar a competição entre as instituições financeiras, de modo a evitar que a expansão do crédito se traduza em aumento dos custos. Outra medida seria a redução da demanda governamental, que contribuiria para abortar as tentativas de aumento dos preços pelas empresas. E, por fim, uma redução da carga tributária dessas empresas.



Receita Federal sobe 30% taxa sobre as chamadas bebidas quentes

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Viviane Monteiro, Jornal do Brasil
BRASÍLIA - O governo federal aumentou em 30% a alíquota do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para as bebidas alcoólicas consideradas “quentes” nacionais e importadas, no setor industrial. O anúncio foi feito nesta quinta-feira pela Receita Federal do Brasil. Dentre as bebidas que terão os alíquotas acrescidas estão o vinho, uísque, runs, aguardentes, conhaques e batidas, mas não a cerveja. O aumento faz parte do decreto nº 6.501 publicado em 02 de julho e que entra em vigor em 1º de outubro.
Segundo o coordenador do Fisco, Helder Silva, desde 2003 que o setor não passava por reajuste. Ele disse que o objetivo da medida é acompanhar a evolução da inflação do setor, pois os preços ficaram congelados durante cinco anos, enquanto que a inflação do setor pode ter chegado até 30%. O decreto inicialmente começaria a vigorar em agosto, mas passou por algumas mudanças e agora vai passar vigorar apenas em outubro.
O governo não incluiu neste pacote o reajuste das alíquotas de cerveja, refrigerantes e água. Porém, Silva lembrou que o reajuste para tais bebidas estará na Medida Provisória 436, originária no Executivo que tramita no Congresso Nacional. Neste caso, serão alterados os cálculo da cobrança de IPI, PIS e Cofins. Silva não informou qual será o reajuste concedido as essas bebidas que pode entrar em vigor em janeiro do ano que vem.
O coordenador do Fisco calcula que as fabricantes de bebidas alcoólicas quentes farão um repasse de até 5% ao preço das bebidas ao consumidor final. A previsão é que quanto maior seja o preço da bebida maior será o reajuste ao consumidor. No entanto, Silva não quis estimar o impacto financeiro da medida sobre a arrecadação da Receita Federal.
O reajuste de 30% na alíquota do IPI varia conforme a classe das bebidas que representam as letras do alfabeto: de A a Z. Com o aumento do IPI, o piso das alíquotas fixas sobre o valor das bebidas alcoólicas subirá para R$ 0,14 a unidade nas fabricas, ante R$ 0,11. Se enquadram nesse valor as bebidas mais baratas, como vinho e cachaça de garrafa de 300 ml.
Já o teto da alíquota subirá para R$ 17,39, ante R$ 13,00, que é aplicado sobre o valor das bebidas mais sofisticadas, como o uísque importado e a vodka. No caso da cachaça, a alíquota subirá de R$ 0,34 para R$ 0,39 a unidade.
O especialista do Fisco afirmou que as alíquotas do IPI incidentes sobre os valores das bebidas alcoólicas quentes equivalem a cerca de 60% do preço do produto, por não ser considerado um produto prioritário da população. No caso do vinho, o percentual é de até 10%, que equivale ao percentual mínimo. O impacto menor sobre o vinho, disse Silva, decorre das características socioeconômicas do setor, cuja produção das vinícolas é feita por cooperativas, em sua maioria.
A partir de 1º de setembro todos os fabricantes de bebidas alcoólicas quentes terão de se enquadrar ao novo reajuste. Terão que informar à Receita Federal, pela internet, as características de suas bebidas fabricadas, para que o Fisco já comece a arrecadar o aumento no mês seguinte. Até então, todas as informações eram encaminhadas à sede da Receita Federal em Brasília, que centralizava os dados nacionais. Agora a operação será feita nos órgãos regionais, para facilitar o trabalho do Fisco.
– E mais fácil que o enquadramento fique no domicílio do próprio contribuinte – declarou.
O superintendente do Sindicato da Indústria de Bebidas (Sindibebidas) de Minas Gerais, Cristiano Lamego, afirmou que o aumento do imposto será repassado ao consumidor. Ele disse que as empresas não terão como reduzir a margem de lucro para arcar com esse aumento de “custo de produção”.
Lamego reclamou, ainda, da classificação das bebidas nas diferentes faixas de alíquotas. Ele citou também o exemplo da cachaça. Segundo o superintendente do sindicato, o IPI cobrado sobre a cachaça artesanal, produzida em alambique, será de R$ 2,23 por litro. E o imposto sobre a cachaça produzida industrialmente será de R$ 0,38.

Crise deixa exercício de previsões mais difícil

terça-feira, 5 de agosto de 2008

O que esperar do mercado nos próximos meses ou até no próximo ano? Volatilidade. O professor da Universidade da Califórnia em San Diego Alan Timmermann diz que não é possível arriscar uma resposta que vá muito além disso. Especialista em finanças, particularmente no estudo do mercado de ações e dos retornos dos ativos, Timmermann esteve no Rio na semana passada para participar do 8º Encontro Brasileiro de Finanças, realizado no Ibmec. Ele diz que os acontecimentos recentes na economia americana - derivados da crise das hipotecas de alto risco, os "subprimes" -, estão apresentando um cenário completamente novo, no qual fica mais difícil fazer previsões, inclusive das reações do mercado.
Na visão do professor, depois que as grandes perdas relativas aos subprimes começaram a vir à tona, os investidores passaram a se dar conta de que muitas das estratégias tradicionais que eram usadas talvez não são mais aplicáveis nesse momento. "Por exemplo, será que é hora de comprar ações de bancos porque elas já caíram tanto que se tornam uma oportunidade?", observa Timmermann. Ele lembra que, em muitos casos, os próprios bancos não sabem qual o tamanho exato dos prejuízos que sofrerão por conta da exposição a hipotecas, derivativos e outros tipos de ativo. "Acho que estamos todos aprendendo a lidar com essas incertezas em tempo real e isso vai levar um tempo", diz o especialista da Universidade da Califórnia. Por isso, afirma Timmermann, não será surpresa se o mercado continuar por um bom período sem tendência definida, entre altas e baixas, ou seja, mais volátil. Ele também não acredita que já tenham ficado para trás as últimas perdas causadas pelas hipotecas de alto risco. "Por um tempo considerável ainda vamos ter de lidar com incertezas que vão tornar mais difícil dizer se o mercado vai se mover para cima ou para baixo", analisa Timmermann. "Os efeitos sobre a economia devem se prolongar por 2009 ou até mesmo 2010", prevê o professor.
O mercado de ações dos Estados Unidos vai continuar sofrendo e contagiando os outros do mundo todo, acrescenta Timmermann. Porém, ele acredita que as perspectivas para a economia e para as empresas brasileiras são positivas e que, no fim das contas, apesar do contágio inevitável dos mercados, os fundamentos vão prevalecer. "Mas se deve esperar volatilidade também no Brasil, especialmente nas indústrias que são altamente dependentes dos mercados desenvolvidos", prevê. Por outro lado, o fato de ser um exportador de commodities coloca o Brasil numa posição mais confortável. Timmermann está ficando cada vez mais familiarizado com a economia e as empresas locais e não é apenas porque se casou com uma brasileira. "As companhias brasileiras estão mostrando que sua relevância na economia global está mudando; para os americanos, foi um choque ver a InBev comprar a empresa que faz a Budweiser, a Anheuser Busch", contou ele, rindo. "A empresa conseguiu obter recursos num momento difícil da economia global para essa aquisição."
Mas não é só. O professor diz que a Vale e a Embraer estão cada vez mais nas manchetes das publicações mais importantes de economia dos Estados Unidos e lembrou que a Petrobras também esteve em evidência por conta das descobertas da camada do pré-sal. "Outras empresas que começam a despertar atenção são as agrícolas ligadas ao etanol; há um interesse muito grande pelo assunto", diz. No evento, ele apresentou um trabalho que discute se é possível prever a distribuição de retornos no mercado de ações. "O que eu verifiquei é que é muito difícil prever os retornos médios dos mercados, mas há chances melhores de prever alguns detalhes que estão ligados a esses retornos", diz ele, acrescentando que esse resultado pode ser interessante para estratégias envolvendo opções de compra e de venda. O estudo mostrou ainda que é mais fácil prever altas do que baixas de mercados.

Investidor deve ter cautela e evitar riscos excessivos

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Jornal Valor Econômico
Angelo Pavini,
De São Paulo
25/07/2008
Quem disse que não podia piorar? O Índice Bovespa caindo mais de 3%, de volta aos 57 mil pontos, os juros subindo além do esperado, o dólar em baixa, tudo isso mexe com os nervos do investidor.
A principal orientação para o aplicador é ter cautela. Quem já está com uma parcela grande dos recursos em bolsa deve evitar aumentá-la, apesar da tentação que as quedas de alguns papéis possa trazer. E reforçar a posição em DI. Já quem tem poucas ações, pode começar a olhar as oportunidades que surgiram, mas esperando retorno apenas no longo prazo, talvez para o fim do ano que vem. No dólar, a visão é de que o juro real no Brasil é tão alto que há pouca chance de a moeda americana disparar no médio prazo.
Marco Navarro, diretor de Investimentos do Unibanco Private Bank, está otimista com o mercado brasileiro, mas prevê três meses de muita turbulência à frente. Por isso, recomenda aproveitar a queda para comprar ações, mas apenas para os clientes muito arrojados. "Olhando o longo prazo, papéis como Petrobras e Vale já se tornam atrativas, depois de caírem 35% desde o pico deste ano", diz Navarro.
Já para Ricardo Braga, gerente-geral da Votorantim Corretora, o melhor agora é esperar o mercado americano parar de cair antes de aumentar a exposição em bolsa. "Hoje estamos recomendando não aumentar posições ou procurar papéis bons pagadores de dividendos de primeira linha", diz ele, citando o setor elétrico como exemplo. A percepção é de que o mundo vai crescer menos e isso deve reduzir os preços das commodities, afetando os papéis de primeira linha brasileiros. Com isso, não será surpresa se o Ibovespa recuar para 53 mil pontos no curto prazo. Mas, no médio prazo, a corretora segue otimista com a bolsa, considerando que os países emergentes vão continuar crescendo e consumindo mais commodities.
O mercado está se movendo hoje de olho no valor do dólar no exterior, que influencia os preços das commodities e do petróleo, e nos resultados das empresas americanas, diz Álvaro Bandeira, economista da corretora Ágora. Para Bandeira, há um aumento da aversão global ao risco e o investidor troca ações de emergentes por títulos americanos. E isso afasta os preços das ações de seus fundamentos. Ele acha que o pior já passou, mas a bolsa pode ficar nesses níveis até o último trimestre, quando podem surgir sinais de melhora do quadro econômico mundial. Bandeira considera que algumas boas empresas caíram muito, e quem tem sangue-frio e quer comprar boas empresas pode ter uma chance agora, de adquiri-las progressivamente. "Temos papéis como siderúrgicas, Petrobras, Vale e bancos, que sofreram muito", diz.
Mas se o investidor que está em bolsa está incomodado demais com as perdas recentes, o melhor é vender e aceitar o prejuízo, afirma Luiz Eduardo Santini Mello, diretor do Private Bank do Banco Fator. "É hora de o cliente ver se suas aplicações estão coerentes com seu perfil de risco", diz. Segundo ele, o cenário geral do mercado mudou e o Brasil, que vinha se beneficiando dos preços das commodities, agora sofre com a queda. "E quem estava apostando no curto prazo e foi pego pela queda, o melhor é realizar", diz ele, observando, porém, que se a aplicação for de longo prazo, faz sentido manter.
Mello acha que não é hora de entrar em bolsa, apesar de ver papéis com preços convidativos. "Não dá para saber se isso que estamos vivendo vai parar agora ou é início de processo de baixa maior", afirma o executivo.

Julho frustra aposta em retomada de ofertas na Bovespa

terça-feira, 22 de julho de 2008

(Jornal Valor Econômico)
Graziella Valenti e Ana Paula Ragazzi, de São Paulo
22/07/2008

Está mais difícil do que se imaginava. O apetite do investidor para ações em julho não apresentou a melhora esperada frente ao primeiro semestre do ano. Um prenúncio ruim para o restante de 2008. A única oferta no mês foi a megacaptação da Vale do Rio Doce, de R$ 18,5 bilhões, que, apesar do prestígio da companhia, enfrentou a exigência de elevados descontos pelos investidores. "Ficou claro que o mercado não está receptivo", afirmou André Luiz Fernandes, diretor de relações com investidores da Marítima Seguros, que resolveu postergar definitivamente a abertura de capital, para 2009 ou até 2010. A companhia ainda considerava listar as ações neste ano.


Em julho do ano passado, houve 19 emissões de ações na Bovespa, sendo 16 aberturas de capital. Juntas, essas operações somaram R$ 16 bilhões - ainda assim, volume menor do que o obtido pela Vale do Rio Doce sozinha. Neste ano, nem a correria para antecipar ofertas por conta das férias do Hemisfério Norte - que reduzem a demanda pelos papéis devido à diminuição do ritmo dos negócios - garantiu um aquecimento das captações. Em 2007, foi justamente esse fator, somado à sombra da crise financeira dos Estados Unidos, que estimulou as ofertas.


O deságio sofrido pelas ações da Vale ampliou ainda mais as incertezas quanto às chances de sucesso das empresas que ainda querem fazer oferta. Especialmente, das novatas. A mineradora pretendia em captar até US$ 15 bilhões, mas consegui US$ 11,5 bilhões.


Para as companhias já abertas que querem lançar mais papéis, é possível que haja algum espaço. "O apetite por ações está menor no mundo todo. Mas boas histórias ainda podem conseguir algum êxito", disse Aristides Jannini, diretor do WestLB. Para ele, o desconto da Vale do Rio Doce não deveria desanimar os interessados, pois têm relações com o cenário específico da empresa.


Até mesmo a potencial abertura de capital da Visanet deve ficar para 2009. Trata-se de uma das operações mais aguardadas do ano e com capacidade para se igualar ou ultrapassar os R$ 6,7 bilhões obtidos pela OGX, de Eike Batista.


Ana Carolina de Salles Freire, sócia da Tozzini Freire Advogados, não acredita que o mercado para as ofertas de ações melhore no segundo semestre. "Houve novos eventos, nos Estados Unidos, como as dificuldades enfrentadas por outras empresas de financiamento imobiliário e bancos, que reacenderam as incertezas", diz. "O momento de mercado está péssimo e a liquidez, baixa."


Atualmente, na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) existem cinco ofertas em análise, segundo Felipe Claret, superintendente de registro da autarquia. Tivit, Renova Energia e Infinity Bio Energy voltaram a buscar o registro no final do primeiro semestre, quando a aposta predominante era de alguma melhora no humor dos investidores na segunda metade do ano. Nenhuma delas desistiu oficialmente desse projeto até o momento. Rede e Light já são listadas e pretendem colocar mais papéis em circulação na bolsa. Caso não obtenham o registro até dia 29, essas empresas terão que atualizar o material da oferta (prospecto) com os resultados do segundo trimestre.



A falta de apetite do investidor e o cenário de incertezas já levaram 34 empresas a desistir de ofertar ações na praça paulista neste ano. Quatro outras empresas adiaram a análise da operação na CVM.


A Marítima Seguros, que tentou lançar suas ações no ano passado, não chegou a voltar à CVM para buscar um novo registro. Fernandes, diretor de relações com investidores contratado há quatro meses, contou que a empresa deve negociar um aporte de US$ 150 milhões a US$ 200 milhões com um fundo de participação - ou "private equity"-, que poderia ficar com até um terço do negócio. Caso não feche a transação, a empresa partirá para emissão de dívida no mercado internacional.


Segundo o executivo, a Marítima não desistiu de ir à Bovespa. Porém, não vê vantagem de enfrentar o elevado desconto exigido pelos investidores neste momento. Pensando em retomar a operação, a empresa havia até redesenhado a captação. No lugar de emitir apenas ordinárias no Novo Mercado, optaria pelo Nível 2 para poder listar também preferenciais e, com isso, elevar o volume da captação sem colocar em risco o controle do negócio. Operações de grande porte são imperativo colocado pelos estrangeiros - nada abaixo de US$ 500 milhões interessa.

Sobe ou cai neste pregão? Antes de apostar, atenção às pistas dadas pelo mercado

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Por: Roberto Altenhofen Pires Pereira
23/07/08 - 08h33
InfoMoney
SÃO PAULO - Os momentos que antecedem a abertura da Bolsa geralmente são os de maior ansiedade para os investidores. Com dinheiro em jogo, a expectativa com o primeiro passo de um índice ou uma ação pode determinar o humor e a estratégia a ser adotada ao longo de todo o dia.Mas longe de apostar em um movimento inicial de alta ou baixa, diversas pistas fornecidas pelo próprio mercado devem ser verificadas, justamente para minimizar as possibilidades de erro.A primeira questão é que estas "pistas" se dividem de acordo com seu grau de abrangência. De forma mais simplificada, as ocorrências que determinam os movimentos na Bolsa são ou restritas a um setor em específico ou econômicas, que afetam o índice como um todo.Sendo assim, o investidor deve, antes de tudo, saber qual o movimento que ele busca prever: de uma posição isolada ou da tendência do mercado no dia. Cada questão aponta para um lado.A tendência do índiceUma tendência de alta ou baixa de um índice acionário passa por diversas questões, mas nem por isso é difícil de ser prevista. Geralmente, o que determina o rumo da bolsa no dia são os pontos que mais preocupam os investidores naquele momento. A partir desta premissa, o exemplo atual parece ideal. Os dois fatores que mais preocupam os investidores no momento são: inflação e sistema financeiro internacional. Basta olhar as últimas sessões para reconhecer que se estas referências oferecem sinais mais preocupantes, o dia é de baixa; do contrário, positivo. Em alguns casos, estas referências se confrontam, aí vale a que oferece o indicador ou notícia mais surpreendente.Cuidado com os indicadoresOs 'termômetros' do mercado são fáceis de ser determinados, e os eventos previstos são fáceis de ser encontrados. Com exceção de alguma ocorrência extraordinária, os tópicos que fomentam estas questões estão programados nas agendas de indicadores do dia.Com setor imobiliário no centro das tensões e indicador do segmento aguardado para o meio do dia, o mínimo que se pode esperar é ansiedade e conseqüente indefinição das bolsas até sua divulgação. A Infomoney disponibiliza uma sessão com a agenda de indicadores do dia, bom roteiro do que está programado para o pregão.Índices futurosCom a programação do dia já em mãos, ou investidor pode prever uma reação prévia dos mercados a partir do movimento dos índices futuros. Pelo peso dos investidores estrangeiros sobre a bolsa brasileira, Wall Street pode ser considerado o principal termômetro do Índice Bovespa.Por esta questão, acompanhar a oscilação dos contratos futuros dos principais índices de ações norte-americanos negociados na Chicago Mercantile Exchange pela manhã muitas vezes indica o rumo da bolsa brasileira, assim como o movimento dos índices futuros domésticos negociados na BM&F (Bolsa de Mercadorias e Futuros), cujas operações têm início antes da abertura da Bovespa.Qualquer mercado que já opera pode oferecer informação valiosa, como as bolsas asiáticas e européias. Pela diferença de horário, muitas vezes os fatores que influenciam estes mercados podem ser apenas ajuste ao dia anterior, mas também podem relacionar o impacto de alguma ocorrência abrangente, cujo reflexo se estenda à bolsa brasileira. É preciso avaliar o timing exato desta reação.Blue chips também essenciaisAlém da referência externa, o caso específico do Ibovespa ainda é marcado pela dependência da variação dos ativos de Vale e Petrobras. Juntas, estas ações respondem por mais de 30% do cálculo do índice.Os drivers envolvidos nestes dois papéis também podem, portanto, determinar a alta ou baixa do Ibovespa no dia. Uma dica: como as duas empresas são ligadas ao mercado de commodities, movimentos de alta ou baixa no preço das matérias-primas geralmente pressionam ou impulsionam estes papéis.Aposta em ação específicaMas quando a necessidade do investidor é "prever" o movimento de uma ação isolada, o caminho pode ser outro. Como alguns catalisadores abrangem a bolsa como um todo, outros afetam setores isolados.É aí que entra o noticiário corporativo. O problema é que as referências anunciadas, na maioria das vezes, não estão programadas antecipadamente, o que torna esta previsão mais difícil. Apesar de possíveis "surpresas" que podem chegar ao longo do dia, alguns pontos podem ser verificados. Atualmente, o momento é de entrada na famosa temporada de resultados. A divulgação dos balanços fornece ótima referência da situação financeira e desempenho operacional das companhias, e costuma mexer com as ações. Resultados e históricoAtenção com a temporada de resultados é essencial, uma vez que mesmo quando não se trata da empresa em questão, a divulgação dos dados de uma rival dá grande idéia do que estar por vir para a companhia focada. Em geral, afeta o setor como um todo, e pode afetar outros segmentos da bolsa, no caso de setores de alguma maneira relacionados, como exemplo, mineração e siderurgia.A partir daí, a Infomoney também disponibiliza uma sessão específica, com o cronograma dos resultados a serem apresentados.Se além de acompanhar o ativo o investidor visa firmar uma posição, de compra ou venda, outra referência importante é o histórico recente do papel em questão. Remete à máxima: comprar na alta e vender na baixa.